Aquele pedaço meu chamado dignidade está gritando. E diz, contra todos os outros pedaços em mim, que a renúncia ainda é uma opção, que é possível permanecer digno - e mais: ser ainda mais digno - reconhecendo a futilidade de alguns atos e abandonando alguns gestos frequentes. Não me ocorre, no entanto, abandonar gesto algum. E acho até que, enquanto não perco toda a dignidade, posso ainda fingir que escrevo, realçando um ou mais traços de qualidade minha. Ilusões para se cultivar em um jardim.
Não falta nada. Tenho ainda até os mesmos amigos que fingem gostar do que eu digo. Já não sei se é de agora, percebo que há/sempre houve uma necessidade em me agradar. Não, não são falsos amigos. São queridos amigos que cuidam da minha ilusões, que me afagam docemente o ego, permitindo minha fuga todas as noites. Amigos preciosos, mas que me faltaram com a verdade e que obrigaram a ver o mundo com meus olhos míopes e tendenciosos. Correndo, ainda, o risco de violar meus próprios códigos.
Há quem diga, até, que eu sou má. É a mesma doce alma que me chama de coisas ainda piores, mas sequer posso acusá-la de difamação. Ela me entende, sabe que não há nada em mim que seja essencialmente diferente dela. E somos, sempre, a transição de nós mesmas. Foi assim que meus desejos se foram e, buscando uns casa com cômodos menores que conservasse o mesmo aconchego, encontraram-na. Eu sou má, ela me diz, sabendo que isso nada tem a ver com mediocridade.
É preciso admitir, entre outras coisas, a felicidade dos meus acasos. Poder chamar de amigos, ainda que sob perspectivas pouco ambiciosas, pessoas como Mariana Khalil, Diana Borges, Gustavo Ruzzene, Elba Rocha e outros, faz de mim uma pessoa notável. Uma pequena notável. Mas nada tem a ver minhas relações com uma possível notabilidade. Incrível a beleza do coração, se assim posso chamar, de cada um deles. E porque me fazem um bem sem explicação é que às vezes escrevo com alguma alegria. E fica fácil dizer o que sente, sendo sincera e pouco retórica, quando isso se dá em explosões múltiplas.
Não me arriscaria a qualquer diagnóstico a meu respeito. Ando triste, e acho que não existe nada além disso. Nunca houve, aliás. Começo a desconfiar que a tristeza não é um estado, mas uma condição. Não é ruim. É caso, apenas, de se acostumar, como com a alegria. Ou aceitar que não existe escolha permanente. Aceitar que não basta suor para uma execução perfeita, também é necessário algum desprendimento e aquilo a que me habituei a chamar de dom. E é por isso que, mesmo querendo, não posso cumprir as promessas que fiz, tamanho seja meu desejo de atendê-las. Não se zanguem, caros amigos, com minhas falhas. Sou humano, demasiado humano. Nem sempre cabe ao meu orgulho reconhecer meus defeitos ou ao meu abatimento, reconhecer meus atributos. E escrevo desgovernadamente quando deveria calar meus dedos ou passo dias sem escrever, quando tudo em mim arrebenta em sentimento.
Compreensão, amigos.
Porque não sou mesmo medíocre. Se sou capaz de assumir.
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À todos os amigos citados e aos não citados, mas em especial à Diana, que me arrebentou as veias e me confessou, entre delicadezas, que eu estava irreconhecível. Morrendo e matando de delicadeza. Aquele monstro de delicadeza.
19 abril, 2009
15 abril, 2009
(sem título XV)
Há de ser prioridade nessa minha vida amar as pessoas certas e parar de amar as erradas.
09 abril, 2009
Minha vida, meu desejo e a distância entre as coisas.
Pensei em apagar tudo que vivi, escrevi e li até agora em troca de uma próxima experiência menos real e, talvez, mais válida. Mais bonita, com certeza, que todas as coisas que já fui capaz de viver. Triste, frágil e cheia de dor, eu havia decidido me recolher. E uma flor me chegou pelo correio, uma resposta aos meus afagos. Leve. Um carinho que eu quase senti físico, mas foi por dentro, aqueceu o peito. Um beijo do amigo distante.
Amigo,
fiquei ainda mais frágil, mais triste e mais dolorida. Eu não posso te responder agora, nem sei se poderei um dia, só sei que choro feito a criança que descrevi em você, sem saber, ou não, do verdadeiro velho que escondes. Mas uma resposta surgirá e voltará às suas mãos como forma de agradecimento. Não é necessário que seja recíproco, é só necessário que seja verdadeiro em tudo que seja. Já és, sinceramente, meu pedaço de vida e desejo.
Amigo,
fiquei ainda mais frágil, mais triste e mais dolorida. Eu não posso te responder agora, nem sei se poderei um dia, só sei que choro feito a criança que descrevi em você, sem saber, ou não, do verdadeiro velho que escondes. Mas uma resposta surgirá e voltará às suas mãos como forma de agradecimento. Não é necessário que seja recíproco, é só necessário que seja verdadeiro em tudo que seja. Já és, sinceramente, meu pedaço de vida e desejo.
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