Aquele traço marcado...
o que é?
Foi um risco que se perdeu da tinta.
Foi o corpo que faleceu no ar.
Foi o vazio de ver tudo círculo
e não poder discutir a forma.
Foi o resto perdido no branco.
Aquela marca azul,
o que é?
É uma linha entre o campo e o céu,
o céu e o mar.
É uma mancha no mar.
Tudo cabe dizer e tudo pode ser dito:
que é esboço, linha, lance, sinal, vestígio.
Que é rastro.
É um erro sobre o texto,
um pedaço de mágoa no inteiro,
imperceptível,
pequeno e mudo,
cômodo, triste.
Sem argumento.
Apoético.
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17 maio, 2011
11 novembro, 2010
{calmaria}
Dei passos sobre as nuvens e me feriram tal qual areia sob o sol. A chama ardeu-me os pés, e me acompanhou as nervuras, transcendeu a carne e feriu o peito cristalino, arrancou-me as asas. E pura foi a sensação de invadir o céu em profusão e desmontar todo o azul fosforescente dos caminhos do meu pensamento. De lá, vi o arder das cores vivas nos cabelos e nas peles.
Tudo o que arde vem de dentro, estala dentro. Pelos olhos embriagados, um matiz anil mergulha, desnorteado. O infinito na ponta dos dedos, desdobrando-se em oceanos por sobre a cabeça, fazendo chover um vitral sobre os cabelos. Também é celeste a estrela mais fria, mas também ela arde, também ela queima. O ardor, no entanto, passa com o vento. Vê como chega a calmaria? A paz é bem mais cruel na guerra inclemente: é induto da alma.
As letras descobrem significado, e também ardem. Mas nem toda poesia é sincera, assim como nem todo coração. E não importa quantas vezes seus dedos mergulharão as feridas, porque a dor simplesmente passa, teus fluidos secam; ou vem com ela a morte. Meus pés não se firmaram sobre a nuvem, que choveu. E me desfiz em lágrimas violetas, lavando o vermelho sangrento da mágoa sobre a cidade.
originalmente publicado aqui.
30 julho, 2010
Passarada
Sê-de poeta
São tranquilos os passos inconscientes
que não buscam no chão o passo seguinte,
que não perdem o caminho ou não importam-se em perder,
que sentem o chão como nuvens vazias,
ue tropeçam e caem, sem perceber.
Os pássaros, mudos, invejam o andar.
Com que plenitude poderiam fazê-lo?
São tranquilos os passos inconscientes
que não buscam no chão o passo seguinte,
que não perdem o caminho ou não importam-se em perder,
que sentem o chão como nuvens vazias,
ue tropeçam e caem, sem perceber.
Os pássaros, mudos, invejam o andar.
Com que plenitude poderiam fazê-lo?
O teu olhar em cacos
e a paisagem em cacos.
Os teus lábios em cacos
dizendo palavras em cacos.
Teu coração em cacos,
teu amor em cacos,
tua esperança em cacos.
Tu és um todo despeçado sobre um íntegro vazio.
O poema se vestiu de nuvem
e no horizonte adormeceu lilás.
E o frio que seguiu foi culpa do vento:
espalhou a poesia em gotas
.
d'aqui.
11 maio, 2010
Sobre homens
Engana-se aquele que pensa que ser pássaro basta:
são hoje os homens mais impressionados com poodles.
São pássaros, pragas
medonhas e bárbaras
que batizam a cabeça alheia
com o sumo infame da terra.
São poodles bocados de nuvens
que saltam, treinados, qualquer porção de coisa.
Seus restos fecais são bombons, vejam só!
Isso, talvez, explique o hábito que os cães tem de cheirar os cus, uns dos outros.
Mas não queira ser pássaro, devaneio certo!
Voar não é para o homem.
Este, coitado
- antes fosse poodle -,
só nasceu p'ra tropeçar e cair.
______________________________
são hoje os homens mais impressionados com poodles.
São pássaros, pragas
medonhas e bárbaras
que batizam a cabeça alheia
com o sumo infame da terra.
São poodles bocados de nuvens
que saltam, treinados, qualquer porção de coisa.
Seus restos fecais são bombons, vejam só!
Isso, talvez, explique o hábito que os cães tem de cheirar os cus, uns dos outros.
Mas não queira ser pássaro, devaneio certo!
Voar não é para o homem.
Este, coitado
- antes fosse poodle -,
só nasceu p'ra tropeçar e cair.
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d'aqui.
06 maio, 2010
Madalena
Simplesmente linda. Quando colore-se, irradia tal qual um cristal atravessado pela luz. Uma beleza simples toma seu rosto e percorre seu corpo tão naturalmente que nela não se encontram traços de estranheza. Defeitos minuciosos, visíveis e calculadamente distribuídos lhe dão uma imagem tão bela quanto doce, uma perfeição em suas imperfeições.
Ela, no entanto, não aceita estar onde está: Madalena não admite a sucessão de caminhos que a vida lhe impôs e o tom injusto com o qual cada amor lhe é apresentado e, em seguida, retirado. Expõe-se, vergonhosamente, quando assemelha-se demais aos demais. Todos sabem, como ela, que distanciar-se da humanidade é uma maneira de analisá-la criticamente, para depois reconhecer-se.
Sua lágrima é constante e desesperada. Quem a vê em prantos atesta a teimosia de Madalena em aceitar sua dor, enquanto a face contrai-se de ódio do fatídico rio que lhe corre a face e cora as bochechas. Relutante, respira fundo, ameaça-se inconscientemente e sorri. Uma dor qualquer não faz sentido algum.
Madalena decreta o fracasso sem que antes haja tentativa. É uma forma de eximir-se do sofrimento antes que ele venha e lhe tire o sono pela noite. Então sonha com o que não houve e com o que não haverá, sendo ela tão digna de ser aquilo que quiser.
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d'aqui.
21 abril, 2010
Stigma/Defesa
Acusam-me de amar, mas não tenho nada.
O que tive foi desejo; este morreu.
Quando amei foi longe e foi longe o tempo em que existi, inteira.
O que vêem são os elos que sustento, sozinha, para não deparar-me com a vida.
Porque é tão doce um beijo bem dado, com alguma ignorância sentimental;
é tão bravo o peito que insiste e, ora, tão covarde em desistir;
é tão triste, por fim, querer tanto e merecer tão pouco.
O que tive foi desejo; este morreu.
Quando amei foi longe e foi longe o tempo em que existi, inteira.
O que vêem são os elos que sustento, sozinha, para não deparar-me com a vida.
Porque é tão doce um beijo bem dado, com alguma ignorância sentimental;
é tão bravo o peito que insiste e, ora, tão covarde em desistir;
é tão triste, por fim, querer tanto e merecer tão pouco.
Copiado de mim, d'aqui.
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