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27 junho, 2011

(ar)Rasto

Eu, no teu encalço,
farejo pelas vielas e becos.
Procuro as promessas feitas,
as pichações cegas,
as provas do assassínio que cometeste contra o meu amor.
Tua imagem, que me é quase uma ofensa,
atravessa meu pensamento à mínima suspeita do teu perfume.
Esvai-se, esvai-se
sem nunca perder, de fato, a forma de quem constroi sonhos.

Não te sigo,
sigo teu rastro. Sigo o passo apagado pelos dias.
Miseravelmente,
sigo o vestígio de onde penso que esteves.

E dou contigo às caras
punindo-me por ser lento,
por não acompanhar-te a tempo.
Eu nego, tu sofres,
eu juro, tu injuria-se.
Assumo o erro que não tive,
faço-me vilão.
Perdura-se, perdura-se.
Eu me perco, sem logro, onde jamais me encontrarei.

13 maio, 2011

Ultrapasso

Não estão no caminho feito
os passos dados.
Não há vestígio dos pés, daquilo que foram.

O conforto está em esquecer o caminho, em não mais provar o desgosto da areia fina entre os dedos. Porque isso já foi.

Os passos adiantes são sempre como o primeiro e não hão de sofrer o desastre o peso a miséria e angústia de proceder os passos que já foram.

Começar e prosseguir; e o progresso, o próximo passo, é também o primeiro.

Passado, os passos se foram.
Foram, não mais outros serão.
Serão, mas não mais os mesmos.

24 abril, 2011

Jardim

Nada sobrevive ao outono.
Ao inverno, nada.
O esboço perpétuo do tempo
vingará a beleza das flores.
            Cortes de aço.

Insuspeita forma das estrofes raras
e das letrinhas ganhando vida,
cada qual rainha absoluta do fonético mundo leitor.

Riscos levarão aos abismos
e às metáforas perfeitas e ignorantes
para versos de sutil poesia.

09 dezembro, 2010

Sonho

Todas as noites o pensamento verte,
antes do sonho,
e percorre a distância possível às pernas.
O espírito divaga no tempo sobre o tempo
até que dorme,
ausente do corpo,
assim como quando em vida.

Em todas as noites
a quintessência das almas transborda pelas narinas.

19 novembro, 2010

Meus nós

Nas horas
Nós três
Nos achamos:
eu que fui
eu que sou
eu que for

Nossos pés desapareciam sob a densa areia
e não víamos os passos
e não nos conhecíamos
porque nossos desejos eram outros que não os mesmos

Nos olhamos estranhos,
tão amedrontados pelo reflexo magnífico do outro
no espelho desfigurado do eu.

- Quando não existe mais ninguém além de si mesmo para questionar o que é dito
ou visto,
ou você se alegra de ser a mais bem aceita criatura
ou chora por não ter nada a dividir.

E antes que acordasse
os nós engoliram-se inteiros
sem que eu soubesse quem sobreviveu ao sonho.

05 novembro, 2010

Orla

Com o olhar ventando nos desejos, expôs a pele clara ao sol. Viu no mar o desenho mais completo do chamado 'infinito' e desejou morrer contando grãos de areia ou inundada de ondas bravas. A orla se cobria de espuma branca, um encanto ameaçado e injusto das cores, tantos tons indo e voltando, misturadas ao oceano. Eterno oceano.

Deitou-se e viu areia engolindo pele, ou mundo engolindo corpo. Não se podia limitar. Ventava suave, levantando a poeira mais fina. O sol se pôs e adormeceu na praia.

29 outubro, 2010

Do céu que há ao céu que entra

Não há como interpretar o azul
sem crer que haja sobre nós
um grande véu que se desfia
e nos descobre pela noite.

Pois não é azul o céu,
é infinito colorido.
Como não há céu-mar, lua-peixe,
nuvem-bóia, estrela-gente.

Não importa o que se vê,
mas o infinito que o olho não alcança.
O céu se veste de azul
e revela-se nu mais adiante.

Não há no homem infinitos
nem plenitude que, no infinito, caiba.
Há no homem a conta de tudo:
o tempo e o céu, explica-os, equivocado.

Mas há céu? É certo que há.
Há um imensurável céu
e vida, de possibilidades sem fim.
Um céu que entra no primeiro suspirar.

Ao que contempla, deslumbre;
contando estrelas, possível fosse.
Do céu que entra não sabe o homem:
um buraco negro lhe engoliu a vida.

Não é céu azul o que permeia dentro
tampouco o céu que regressa eterno.
No homem, olhos fixos e corpo firme;
e dentro, toda natureza de explosões.

Não é azul o céu, não tem matizes
mas azul é visto e nomeado.
Assim, ilimitado, é o ser que o abriga
enquando crê-se finito na pele.

30 agosto, 2010

Lobotômica

Chegou o drama
sem que houvesse dor latente
para justificá-lo.
Apropriou-se da lágrima
para nela ser manifesta.
Quando passa a agonia,
porém,
nada resta que não a consciência clara e desnecessária do tempo que foi perdido
por um dia,
a cada dia,
sem que o próprio reflexo se deixasse morrer.

Chegou o sonho
sem que houvesse olhos abertos
para acompanhá-lo.
Apropriou-se do sono
para nele ser manifesto.
Quando passa a noite,
porém,
nada resta que não a vaga lembrança do inédito e incontrolável delírio perdido
por uma noite,
a cada noite,
sem que a própria existência se deixasse existir.

27 agosto, 2010

N. o A. -2-

Ando dispersa nos seus lábios,
no que me dizem, na sua risada.
Eu me distraio com tanta informação
que você, seu insuportável, me dá.

Não é culpa minha seu devaneio
de enriquecer meu ego, de enfeitar-me.
Sou eu quem, agora, substituiu o vazio
pela curiosidade perdida dos teus olhos.

É que eu ando dispersa também nos seus olhos
e nas curvas do teu rosto largo.
Me distrai, sem volta, na sua barba por fazer;
enlouqueci, seu cretino, só por diversão.

07 agosto, 2010

Tracto

As diferenças tantas entre os olhares
se perdem, cidade lenta.
A vida progride em espaços brancos;
cada vão inerte guarda o nada de cada um.

E nada: sequência de passado e futuro cujo presente não faz senão produzir esperanças.

Tudo move tão claro diante dos olhos
nada ou muito pouco exige de quem vê.
Sabem as flores colorirem-se no escuro
e o sol, todos os dias, sabe trabalhar sem recompensa.

E por que? E por que não?

02 agosto, 2010

Memória

Eram tão lindas as flores
e tão belo o perfume e...
ah!
que belos dias nasceram
um após o outro!

Depois, tanto sonho!
Ora utopia errante,
ora realidade assídua,
ora devaneio monstro.
A vida em telas,
em torres,
em fios.

o colo delirante, mito.
antes a tirania do peito sobre a vida,
mas também disso a alma se arrependeu mais tarde.

esta heresia chamada saudade
celebra tempos vazios:
manhãs e tardes que nunca foram noites.

30 julho, 2010

(sem título XXI)

Flamejantes verdades se acendem no decorrer da noite.
A alegria justificada não demanda paz, sequer motivo.
A vida acontece
breve, calorosa e tardia.
Luminescente incógnita cujo tempo é o instante do agora.
É mais fácil sobreviver morando em um bolso que em um coração.
Melhor não ser nada no mundo,
melhor não ter foco.
Melhor deprimir que amar.
Melhor silenciar.
A poesia está além da perspectiva invisível, a poesia não é subjetiva.
Mais que a lembrança (e)terna,
surge o riso e o sorriso indecente diante da injúria.

A vida não acabou,
mas bem que poderia.
Cada passo diz bem mais que uma tarde inteira, mas não é tudo.
É um registro eterno do que morre
e de só fazer sentido enquanto morre.
Mas é esta a certeza que falta à vida, o avesso não é a morte.

23 julho, 2010

Prefácio do amor

Dizer o que sente não basta:
sempre se questionará da verdade dos olhos de quem diz e...


(silêncio)


por mais que tente,
não há nada que diga algo
que não a boca
em que não confiam.


(suspiro)


Dizem que deve-se querer em atos e amar em essência,
mas os atos são mudos e...


(lágrima)


basta confiar nas raras palavras
se desejar,
de alguma forma,
ser amado.


(suspiro, suspiro)

22 julho, 2010

Página

Quando desenho tuas pernas, estas enlaçam meu pulso antes que eu chegue a acariciar teu ventre à caneta. Depois de alguma diversão surgem, na ponta, teus mamilos sensíveis e rijos. Não vejo teu rosto, que ainda não o fiz, mas tuas pernas retorcidas me demonstram a volúpia dos meus toques.

Faço-te os braços, mãos e pequenos dedos. Contorno tua face e, mal surge tua boca, dela escuto um gemido contido até então.

Teus olhos inauguram-se estrelados e me seduzem enquanto eu, cuidadosamente, desfio teus cabelos em fios longos de tinta.

Completa e saciada, és agora a figura de mim.

16 junho, 2010

Carmim

É um vermelho quase rosa príncipe-negro.
Talvez um pouco menos aveludado.
É como uma tulipa pela manhã
ou ainda um sangue corrente.

"É a cor do amor!", gritaram os sem-razão.
E sem razão bateu o peito, não sabia do que se tratava.
"O amor tem percorrido grandes distâncias para saciar-se", concluiu solitária.
Não sabia se ria ou chorava.

26 maio, 2010

Eis-me aqui

Por conta d'água que me trouxe e fez de mim sonoro passo;
por conta d'ele que me amou mais agora do que antes;
por tanta conta feita e abraço dado sem tamanho;
por tanto aperto bobo e, agora, dia livre;

É por tanto tempo juntos sem estarmos de mãos dadas
e porque agora entendo de onde surgiu esse amor;
por cada dia triste e alegre que virá, que seja;
por ter, agora, o que celebrar no peito:

Eis-me aqui em repleta paz por existir, mas não apenas!
Eis-me assim pelo que sou nos olhos outros,
pela aura brilhante com a qual me sinto,
por poder o que quer que seja. E será.

Por tanto ensaio do que já é feito, por tanto medo de fazer;
por tanto engano e, agora, acerto; por entender;
porque sei agora de onde vêm as culpas:
Eis-me aqui pronta, plena e feliz.

16 abril, 2010

Andorinha II

Limita o passo, quadrado verde,
                          meio falante,
                          alheio trigonométrico,
                          hecatombe cardíaca brotando
                                                          cogumelo.

- Foi o cigarro?

                         Foi a andorinha: voou esperta
                         concêntrica consciente
                         distraiu-me da localização do ninho.

                         Ou lhe parece que sou predadora
                         ou se lembra dos muros que ergui.

A andorinha não sabe, mas eu não presto. Eu estava diferente, mas não sou, nem serei.
Apenas desejo enquanto podes fugir.

06 abril, 2010

Andorinha

Azul e louca rasga a corrente;
finge, pequena, demasiada pressa.
Pousa em abrigos afastados ao seu, para que nenhum moleque perverso arranque do sossego de seu lar sobre nossas cabeças.
Grita, acuada.
Já é chegado o outono,
não seria hora de buscar a outra metade do hemisfério?

Algumas lembranças só precisam ser, sem que haja nelas aparente significância.

24 março, 2010

Descrente

Guardei-te a tristeza mais sincera de não ver-te na peleja da manhã.
Colocas sobre a mesa meu café, logo esfria.

Nossos pés se adoram um pouco mais.

Descrente,
observas. Talvez a realidade só lhe
seja possível quando me lacera
entre os dentes e seus dedos
entrelaçam as ramas do
meu cabelo macio,
massageando 
meu ego.

Buscas - parece - acorrentar-me em tuas retinas, enquanto observas, descrente.

Tudo que carece,
tudo que falta,
tudo que não é
evade.

Basta que agora acredites que existo, sou tua e para sempre,
por agora,
só.

08 março, 2010

Você não sabe o que é ser mulher

Possuir-se sem requisitos,
sem esperar-se no canto do quarto.
Mais que se cobiçar nas noites:
desejar-se completa o dia que seja.

Pois é esta vida muito necessária
e dela não se pode escapar sem ter sido.
Evade-se a testemunha moral.
Quem fica é quem dorme, quem olha e quem chora.

Qu’importa o tempo gasto na insignificante existência,
se mais belo e constante é o suspiro?
Quantas madrugadas te divertiu contigo
a desmascarar as faces abusadas da estrela?

Que imaginas que imagina quando ferve em delírio?
Não teme afronta de quem chega, o vício impera.
Se vê estrelas, é ela mesmo quem constela.
E transborda mil vulcões, cerra as pestanas.

Se o limite que conhece é a forma
e, entrelaçadas, as pernas denunciam o prazer
foi mais que digno amar-se sem renúncia.
Divino é o elogio que ela toma para si.

Não foi insana ao cravar a própria carne
porque não buscou outra que não a si.
Encontrou-se, abraçou-se, dormiu-se.
Irão dizer: aquela que sub-meteu-se.