Nas tuas manhãs, o teto nublado.
Nela, teu sono, tua preguiça, teus pretextos.
Teu motivo para não levantar.
Ou tua luz plena, sol destemido.
Teu suor, teu sal.
Na tarde lenta e morna,
teu mormaço,
teu arrastar de horas.
Teu trabalho árduo pesando sobre os músculos.
O queimar da pele.
A tua lua sempre branca e cheia.
A tua noite estrelada.
Onde andas, o que vestes.
Teu banho.
Depois,
teu comer, beber e servir.
Cada orvalho pela madrugada.
Só tua, enfim,
mulher e tudo o que queiras,
quando queiras,
até tua próxima manhã.
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06 abril, 2011
30 janeiro, 2011
09 janeiro, 2011
Cartas com Destino
À Diana.
Teu mal, preta, foi tentar ferir-me com minha lança quando eu já sangrava e disso não poderia mais morrer. E ainda, preta, ameaçou privar-me dos teus carinhos, quis ser cruel na distância, acusando-me de não valer a ponta cega de uma lança ou sua sincera devoção.
Se privar-me de ti é tua punição, aceito. Se apagar meu sol fará teu horizonte maior, ofusque o que brilha em mim. Teu mal, preta, é acreditar que eu acredito em tuas intenções. Podes maldizer-me. Eu ainda serei toda amor.
Preta, eu não deixei de estar contigo; apenas entenda, aceite. Eu a amo, isso deveria se estender para além da minha presença ou ausência. É vã tua luta com teus significados se o que deseja é deixar de ser eterna. Eu não a esqueci, tu também não me vais esquecer. Não o faça, não o tentes fazer.
Aceite minha natureza fugaz. Aceite que eu falho muitíssimas vezes onde a perfeição se faz necessária. Aceite que não consigo lidar com tudo o que sinto em palavras. Aceite o que eu não posso aceitar.
Eu não aceito teu adeus. Não aceito que queiras me deixar, não aceito que massacre, de forma tão leviana, o que sinto. Quando sentir minha falta, ligue-me. Mande uma carta, mande um e-mail. Mas não ameace abandonar-me, não seja tão rude. Estou tentando ser feliz, estou tentando acreditar que mereço.
Voltei, Preta. Voltei para tuas farpas e teus doces, voltei para ser alvo de tuas afirmações. Voltei para que destruas. Feliz? Eu estou. Porque voltei ao campo para duelar contigo, minha derrota e prêmio.
27 novembro, 2010
Palindrômico
R: desiludidos, vamos passar nossa noite assim?
T: não faz sentido. Deveríamos nos encontrar numa rua em tons de terra, sentar num pub indecente, escrever poesias no guardanapo sobre essa droga de amor que nos sustenta.
R: deveria falar horas sobre essa virtude que mais parece uma desgraça.
T: e beber toda a mágoa diluída em álcool.
______________________________________________________
Para o Poeta.
Seu rosto invadiu a memória aflita e guarneceu as paredes de uma luz pálida e tímida.
Sorriu.
E bastou para que o coração o quisesse para si.
Seu nome não é só feliz palindromia:
é o descer do rio sob a chuva intensa
e gotas e gotas que serão mar.
Lágrimas em gotas que serão mar no planalto.
Há mais melancolia que timidez no sorriso do poeta.
Seus olhos se fecham em sonhos,
as asas se abrem em vôo.
A cabeça deseja recostar-se em pranto;
os cabelos desejam receber afago.
No espelho, o poeta é ele mesmo:
aquele, de todos os ângulos, desconexo.
O poeta se perdeu no mundo,
mas está lá toda sua vontade de amar;
o desejo manifesto em verso o atormenta.
E sua poesia não é senão a minha
invertida no espelho:
Eu e Remer somos o mesmo poeta, desconsideradas as ortografias.
______________________________________________________
Eu não lhe devo nada, poeta, nem este poema; todas as fogueiras e fagulhas que me foram acesas, todas elas eu deixei que queimassem e se consumissem. Eu sou um tanto estranha e, muitas vezes, incoerente naquilo que digo. Às vezes, a aresta é o único lugar que me cabe, eu me torno momentaneamente racional, eu analiso tudo o que penso, eu não digo nada. Eu me entrego ao mundo que construiram para que eu morasse; um mundo, no entanto, que não é meu, onde eu não sou, onde eu sequer existo. Lá eu fico até que um belo par de olhos doces me venha guiar pela luz, me encher de inspiração e ternura. Tantas noites eu voltei ao meu mundo pelas tuas mãos, tantas vezes eu me orgulhei de ser quem sou, mesmo sendo quem sou. Não se deprima, poeta. Não há nada além da vida, não agora. Ela é esta bem diante dos teus olhos, não há nada maior nem mais imediato que se possa apreciar. Seja livre na medida dos teus pensamentos, vá para o seu mundo. Lá, o planalto é bem pertinho da serra.
05 novembro, 2010
Tempo
Meu coração enfraqueceu de velho,
de velhos sentimentos estagnados,
de lógicas absurdas e egoísmos covardes.
Envelheceu de idade e tempo.
E não houve tempo para dar a Diana uma casa
com todos os sóis e chuvas
e um arco-íris
para seu coração.
Não houve tempo para rearranjar o mundo
e ver Mariana
esquilar por aí.
de velhos sentimentos estagnados,
de lógicas absurdas e egoísmos covardes.
Envelheceu de idade e tempo.
E não houve tempo para dar a Diana uma casa
com todos os sóis e chuvas
e um arco-íris
para seu coração.
Não houve tempo para rearranjar o mundo
e ver Mariana
esquilar por aí.
24 setembro, 2010
Tudo o que perturba
Eu vejo teus pensamentos quando te distrais,
eu entendo aquilo que é desvio,
eu sossego tuas angústias.
Eu não julgo tuas ações.
Apóio, e não fujo aos teus reclames.
Apesar dos teus esforços,
eu confio.
Eu aceito o que me entregas,
nada exijo além do que tenho
porque o tenho verdadeiramente.
- Isso é maior que todos os teus monstros
e mais perturbador que tudo o que já foi -
Eu não lhe dei decepções.
Eu não preciso me conter,
eu sou livre, eu choro.
Eu perturbo a tua alma porque lhe entrego a paz na bandeja,
não lhe causo problemas.
Eu não te amo, enfim.
eu entendo aquilo que é desvio,
eu sossego tuas angústias.
Eu não julgo tuas ações.
Apóio, e não fujo aos teus reclames.
Apesar dos teus esforços,
eu confio.
Eu aceito o que me entregas,
nada exijo além do que tenho
porque o tenho verdadeiramente.
- Isso é maior que todos os teus monstros
e mais perturbador que tudo o que já foi -
Eu não lhe dei decepções.
Eu não preciso me conter,
eu sou livre, eu choro.
Eu perturbo a tua alma porque lhe entrego a paz na bandeja,
não lhe causo problemas.
Eu não te amo, enfim.
09 setembro, 2010
Balada dos teus olhos
Eu não falo dos teus olhos porque são belos.
São olhos como quaisquer outros
que qualquer outro poderia ter.
Falo dos teus olhos porque são meus amigos
e
enquanto tua boca defende tuas razões
teus olhos me amam,
involuntários.
Teus olhos não mentem teu desejo
que tua boca nega
e refulga.
É quase certo,
meu amigo,
que teus olhos sejam mais alegres
e infinitamente mais sorridentes
que os meus.
03 setembro, 2010
Amiúde amor
Eu poderia não saber onde as escolhas me levariam, mas sempre soube onde eu iria com você. Aliás, ainda que eu não soubesse, pouco importou: eu só queria ir onde você fosse. E isso bastava imensamente. Você me possuiu da maneira mais completa, porque eu nada precisei te dar. Um beijo e você me tomou inteira, e eu não era nada, senão sua.
Não vou questionar, aqui, questões de reciprocidade. Aprendi, de mim, que o amor parte de um lado amante. Aprendi, de você, que o amor não existe. Mas amei, por nós dois, numa infinitude ímpar, numa cumplicidade par. E, não tendo me queixado nunca, não o farei agora. Já tive minha cota de insatisfação contigo, quis odiá-lo por me sentir traída - como, de fato, fui -, mas minha mente acabou por lhe dar razão. Porque, antes de tudo, você me satisfez.
E eu ainda te amo. Apesar de nocivo, você me deu os melhores dias e noites que uma mulher poderia sonhar. Os seus beijos são ainda uma lembrança latente, minha boca ainda sente a textura da sua. Das marcas que passaram, ainda sinto o cravar dos seus dentes nas minhas costas, as mãos inquietas e perdidas entre seios e quadril. As indecências carinhosas ao pé do ouvido, ainda as escuto todas. E arrepio, porque ainda sua respiração me acorda na madrugada.
Hoje, minha luta é comigo. Meu ódio é interno, minha insatisfação é interna. Eu prometi fazê-lo meu e não o fiz. E nada valeram meus esforços: apesar de todo seu empenho, eu jamais fui seu amor. Culpa minha. Eu perdi a paixão mais intensa, perdi a exclusividade do seu território (se alguma vez a tive). Só não perdi o amor, porque você o fez irracional. E eu guardei, como segredo, sua continuidade. É minha, para que eu possa amar por toda a vida.
-------------
Este post é uma encomenda, por assim dizer, de um amigo. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não.
27 agosto, 2010
N. o A. -2-
Ando dispersa nos seus lábios,
no que me dizem, na sua risada.
Eu me distraio com tanta informação
que você, seu insuportável, me dá.
Não é culpa minha seu devaneio
de enriquecer meu ego, de enfeitar-me.
Sou eu quem, agora, substituiu o vazio
pela curiosidade perdida dos teus olhos.
É que eu ando dispersa também nos seus olhos
e nas curvas do teu rosto largo.
Me distrai, sem volta, na sua barba por fazer;
enlouqueci, seu cretino, só por diversão.
no que me dizem, na sua risada.
Eu me distraio com tanta informação
que você, seu insuportável, me dá.
Não é culpa minha seu devaneio
de enriquecer meu ego, de enfeitar-me.
Sou eu quem, agora, substituiu o vazio
pela curiosidade perdida dos teus olhos.
É que eu ando dispersa também nos seus olhos
e nas curvas do teu rosto largo.
Me distrai, sem volta, na sua barba por fazer;
enlouqueci, seu cretino, só por diversão.
N. o A. -1-
Guardei palavras tão doces para meus dias ruins
e agora você me vem roubá-las.
Porque meu coração está vazio e você o toma
e me faz feliz. Irresponsavelmente feliz.
Meu querido, não faça assim:
não me devolva o carinho que lhe presto.
Não me deve, nada te devo.
Nós entristecemos e isso também passa.
Só não me seja tão bom, querido amigo,
que eu derramo de verdades incoerentes;
que eu te faço carregar as minhas pedras
e corro todo o risco, sozinha, de me apaixonar.
Deixa assim, como tem sido
com sorrisos viciosos e insensatos.
Não me peça beijos que já são seus:
leve-os, leve. Depois morda os lábios.
Depois me morda os lábios
E me deixe ser sua prisioneira oculta
que ao final do dia - eu prometo - digo:
Eu sou feliz! Ah, eu sou feliz!
e agora você me vem roubá-las.
Porque meu coração está vazio e você o toma
e me faz feliz. Irresponsavelmente feliz.
Meu querido, não faça assim:
não me devolva o carinho que lhe presto.
Não me deve, nada te devo.
Nós entristecemos e isso também passa.
Só não me seja tão bom, querido amigo,
que eu derramo de verdades incoerentes;
que eu te faço carregar as minhas pedras
e corro todo o risco, sozinha, de me apaixonar.
Deixa assim, como tem sido
com sorrisos viciosos e insensatos.
Não me peça beijos que já são seus:
leve-os, leve. Depois morda os lábios.
Depois me morda os lábios
E me deixe ser sua prisioneira oculta
que ao final do dia - eu prometo - digo:
Eu sou feliz! Ah, eu sou feliz!
21 julho, 2010
Minha criança, meu menino.
Um tanto tarde chega esta despedida, e eu justifico dizendo que desisti de algumas palavras que já foram ditas e de outras que já não cabem mais.
Mais que que me ocupar, tua presença me levou a caminhos desconhecidos. Senti-me desbravadora e, muitas outras vezes, uma criança sozinha na mata. Foram tuas mãos que me levaram até lá. Hoje, vejo todos os detalhes como quem assiste a uma cena, distante. Vejo seus olhos. Vejo grandes e brilhantes farois fitando-me, investigando a proporção das minhas verdades e, em verdade, pouco interessado nas verdades mentirosas que eu insistia em revelar. Eu já havia sido revelada, mas me dou conta somente agora.
Minha maturidade se jogou do topo da tua inocência. Deitei no teu colo e fui eu a menina sem passado que nasceu ali, só sua. De muitas formas, meus sentimentos viajaram pelos teus; alguns, jamais regressaram.
Ao tentar transformá-lo, eu me esqueci de cravar os pés no chão. Vazia de tudo, voei nos teus braços. Tu vais e, entendas, eu estou caindo. Doi, porque não sei de onde parte o abandono, por tê-lo abandonado antes, sem saber do que viria depois. Eu ainda sinto tua presença, ainda que tua ausência me venha bater à porta.
Sobre minhas últimas palavras, foram sinceras. Eu te amo.
Mais que que me ocupar, tua presença me levou a caminhos desconhecidos. Senti-me desbravadora e, muitas outras vezes, uma criança sozinha na mata. Foram tuas mãos que me levaram até lá. Hoje, vejo todos os detalhes como quem assiste a uma cena, distante. Vejo seus olhos. Vejo grandes e brilhantes farois fitando-me, investigando a proporção das minhas verdades e, em verdade, pouco interessado nas verdades mentirosas que eu insistia em revelar. Eu já havia sido revelada, mas me dou conta somente agora.
Minha maturidade se jogou do topo da tua inocência. Deitei no teu colo e fui eu a menina sem passado que nasceu ali, só sua. De muitas formas, meus sentimentos viajaram pelos teus; alguns, jamais regressaram.
Ao tentar transformá-lo, eu me esqueci de cravar os pés no chão. Vazia de tudo, voei nos teus braços. Tu vais e, entendas, eu estou caindo. Doi, porque não sei de onde parte o abandono, por tê-lo abandonado antes, sem saber do que viria depois. Eu ainda sinto tua presença, ainda que tua ausência me venha bater à porta.
Sobre minhas últimas palavras, foram sinceras. Eu te amo.
20 junho, 2010
Fome cega do amor (idem)
Olhos fechados, ela e ele.
Mas só depois que ambos se olharam ternamente e pareceu-lhes sensato que o toque fosse logo e que somente conseguiriam sentir o toque do outro quando fechassem os olhos (posto que a imagem que viam era profundamente perturbadora e a mente não poderia, ainda que quisesse, ocupar-se de outro sentido).
Sincrônicas, mãos se tocaram. E como que se de olhos abertos, dedos percorreram dedos e curvas e braços. Arrepios.
Ela, delicada, subiu a mão esquerda pelo antebraço, bíceps, ombro, até as costas, onde cravou-lhe as unhas. Desfez-se da pressão enquanto descia-lhe a lateral do abdômen, depois subiu os dedos levemente até o tórax, onde encontrou seu par direito.
Ele, ardente, subiu-lhe o braço direito pelo mesmo caminho, até os ombros. Depois, encaixou a mão em sua nuca e prendeu os dedos entre os cabelos, enquanto a mão destra apertava-lhe o ventre contra o seu.
Ofereceram-se em banquete, cada qual pela fartura do outro. Engoliram-se de tesão, mastigaram-se mutuamente. Comungaram-se. Cada vez mais força, mais desejo. Beijaram-se infinitamente naquele instante: ávidos, ansiosos, famintos.
Saciaram-se, mas então foi a gula. E não mais de fome se consumiam: a necessidade era do paladar. Seguiram - como até agora estão - beijando-se.
Olhos fechados, eu e você.
16 junho, 2010
Carmim
É um vermelho quase rosa príncipe-negro.
Talvez um pouco menos aveludado.
É como uma tulipa pela manhã
ou ainda um sangue corrente.
"É a cor do amor!", gritaram os sem-razão.
E sem razão bateu o peito, não sabia do que se tratava.
"O amor tem percorrido grandes distâncias para saciar-se", concluiu solitária.
Não sabia se ria ou chorava.
Talvez um pouco menos aveludado.
É como uma tulipa pela manhã
ou ainda um sangue corrente.
"É a cor do amor!", gritaram os sem-razão.
E sem razão bateu o peito, não sabia do que se tratava.
"O amor tem percorrido grandes distâncias para saciar-se", concluiu solitária.
Não sabia se ria ou chorava.
16 maio, 2010
Ao poeta
Divagar, poeta? - Despautério! Não é possível fugir da insanidade. Tudo o que nos preenche - assim como o que nos esvazia - há de apagar-se.
Só não sei dizer das ilusões. Acreditava, ontem, no que não existe, hoje. E já não sei se, de fato, deixou de existir ou se, simplesmente, jamais foi - mas como sabê-lo, poeta? E toda a culpa por ser mercadoria não se dissipa, porque, ao contrário, edificou-se. É, agora, como um membro que eu carrego e, às vezes, até aprecio.
Tu falaste da fome de ser. E eu tenho fome de ser o mais desejável dos seres. Mas estando longe de qualquer apreciação, eu tenho fome de ser o mais repugnante indivíduo, e que meus olhos não sejam mais vistos, que minha pele não seja tocada, que eu não seja aceita em lugar qualquer e que sequer, no mundo, saibam meu nome.
Sendo fácil, poeta, eu morreria. Banalmente, deixaria-me ser levada ao desastre, para que, aos que ficassem, não restasse muita dor ou muita justificativa. Mas o que impele o indivíduo a agir é a possibilidade de arrepender-se descaradamente. E na morte, creio eu, não há como arrepender-se. E sei que meu instável coração não deseja meu fim, tão logo.
Por que, então, poeta, esta gula? Por que esse desejo de explicar-se compulsivamente, descortinar o outro e agregá-lo ao peito? Por que querer amar amar amar? Ignoro.
Pensemos na vida, poeta. Desgraçado fardo ao qual nos apegamos sem limite, e para o qual criamos regras e valores tão absurdos quanto o próprio acidente trágico que é a vida - miséria esta pior que a morte. Não, poeta, eu não vou encerrar minha vida nesta carta. Para matar-me, se o fizesse, não haveria qualquer palavra. Eu guardaria meu último suspiro num silêncio. Não é o caso.
O que invade-me é a recusa de aceitar a vida. Mas veja a demência do que digo: que ironia, poeta, rebelar-me contra o que me mantêm em movimento para rebelar-me! Sequer faz sentido!
Parece-me, poeta, que sou exilada da vida da vida e a enxergo como o vento, sem lugar. Sem encontro.
Eu chamaria o que sinto de melancolia. Tão vazia me sinto que qualquer olhar encanta-me, qualquer elogio seduz. E onde estão, poeta, meus sentimentos? E onde ficam os teus, meu poeta? Onde está o juiz que condenou-me a julgar? E qual carrasco fez de mim tão irracional? E quem tem culpa, poeta, se sou eu o juiz e o carrasco, quem condena e quem executa a pena?
Poeta, eu estou cansada. Cansada de distribuir amor como quem doa roupas velhas ao necessitado, mas também ao burguês preguiçoso. Não recebo nada do que distribuo, mas há aí outra incoerência: Se tanto desejo amor, porque dou todo o que tenho?
Disseram-me, poeta, que preciso de mais amigos. Mas não é disso que preciso, jamais os tive. Eu não sei, em mim, ser amiga; só sei ser amor. E por isso amo tanto e tanto, insanamente, sem medo e sem pudor. Amo de várias formas, mas todas são, eu garanto, amor. Mas, dessa inconsequência ,eu carrego, quase que de imediato, uma dor. Sou fadada a esquecer, porque as pessoas passam, fugazes, deixando em mim um reflexo do que eu sinto, não do que são.
Encerro, poeta, desculpando-me pelo desconforto de ler-me desconexa e amargurada, mas sei que teu bom coração há de querer-me bem, mesmo quando do fim desta carta. Grata por ter chegado até aqui, eu e você.
16 abril, 2010
Da dor de agora
O amor que eu desejo
toma a forma que necessito:
é confortável seu colo quando dele preciso;
é quente seu corpo quando meu eu é frio;
é forte seu braço se quero que me erga;
é fraco seu ego quando preciso que precise de mim;
é amigo seu ouvido, se me sobram desabafos;
é amante seu todo, se eu toda sou carente.
Só não é meu,
meu amor,
em tempo algum do mundo.
Sigo desejando,
angustiada,
que algum dia eu morra dele.
toma a forma que necessito:
é confortável seu colo quando dele preciso;
é quente seu corpo quando meu eu é frio;
é forte seu braço se quero que me erga;
é fraco seu ego quando preciso que precise de mim;
é amigo seu ouvido, se me sobram desabafos;
é amante seu todo, se eu toda sou carente.
Só não é meu,
meu amor,
em tempo algum do mundo.
Sigo desejando,
angustiada,
que algum dia eu morra dele.
06 abril, 2010
Ele - espelho vento rio
Poderia, aquela que o ama, esperar que os ventos criassem em teu lago ondas tais quais a de um oceano. No entanto, ao inclinar-se sobre as águas, vê-se refletida na calmaria desejada. É o mesmo, o desejo que o mantém confortável na brisa e o que o incentiva à tempestade. E se não sabe quanto deve deixar-se soprar é porque aquela que o ama te respira e te sufoca.
24 março, 2010
Descrente
Guardei-te a tristeza mais sincera de não ver-te na peleja da manhã.
Colocas sobre a mesa meu café, logo esfria.
Nossos pés se adoram um pouco mais.
Basta que agora acredites que existo, sou tua e para sempre,
por agora,
só.
Colocas sobre a mesa meu café, logo esfria.
Nossos pés se adoram um pouco mais.
Descrente,
observas. Talvez a realidade só lhe
seja possível quando me lacera
entre os dentes e seus dedos
entrelaçam as ramas do
meu cabelo macio,
massageando
meu ego.
Buscas - parece - acorrentar-me em tuas retinas, enquanto observas, descrente.
Tudo que carece,
tudo que falta,
tudo que não é
evade.
Basta que agora acredites que existo, sou tua e para sempre,
por agora,
só.
09 março, 2010
Viajante regresso, ouça:
feito seu trajeto, é hora então de repousar.
Nos peitos esperançosos houve calor todo esse tempo e cabe, agora, escolher o mais cômodo e afável descanso. Seja sempre bem vindo onde quer que aporte. Vaga minha alma agora em paz, porque não mais existe um oceano de distância. Peço agora que, lendo isto, imagine minha voz a sussurrar-lhe canções ingênuas, até que, leve, sua pele sinta meu cuidado contigo e teus olhos me vejam ao teu lado. Assim cabe o meu abraço aqui, pela falta que me tem feito suas palavras e tua existência menos remota.
_______________________________
Nos peitos esperançosos houve calor todo esse tempo e cabe, agora, escolher o mais cômodo e afável descanso. Seja sempre bem vindo onde quer que aporte. Vaga minha alma agora em paz, porque não mais existe um oceano de distância. Peço agora que, lendo isto, imagine minha voz a sussurrar-lhe canções ingênuas, até que, leve, sua pele sinta meu cuidado contigo e teus olhos me vejam ao teu lado. Assim cabe o meu abraço aqui, pela falta que me tem feito suas palavras e tua existência menos remota.
_______________________________
Roubado de mim, d'aqui.
24 fevereiro, 2010
Pedaço
Encontrei, de mim
um pedaço que fugiu;
que se criou e que cresceu
e só depois me conheceu
pra voltar a abrigar
o seu lar: o peito meu!
um pedaço que fugiu;
que se criou e que cresceu
e só depois me conheceu
pra voltar a abrigar
o seu lar: o peito meu!
18 janeiro, 2010
Sobrevivente (ou Você me trocou por Búzios)
Sobreviveste sem que o mar secasse
sem que a onda branca lhe molhasse os pés.
Entre os dedos, ainda areia
e ainda praia sob a pele quente.
São infinitos grãos
e separam
completas ventanias que se formam:
uma na serra
outra na orla.
Vai agora riscar o nome
daquela que triste espera
e recolhe sólidas conchas
para o sorriso da amada.
Volta,
traz consigo novas cores.
Que o sal não envenene seu gosto
e que seu cheiro não se perca na água.
Que seu olhar se fixe no horizonte.
Que a lembrança venha silenciosa,
assustadora e débil.
Fica, ainda,
quando o coração te parte em raios
e o sol risca nuvens.
Dorme, ainda,
esperando por ela.
Espera, adoece.
Resiste ao regresso,
controla suas dores.
Perde-se em noites profundas,
clama por ela, ela não está.
E não foste tu, ainda sadio, que a abandonaste?
Retrocede, admite-se louco.
Contorce os dedos, revira-se, encontra-se.
Sonha com o abraço.
Isso nada anula, nada muda ou resolve.
Sobrevivente,
volta
pra que te devore e mate
de saudade,
afeto
e brisa.
sem que a onda branca lhe molhasse os pés.
Entre os dedos, ainda areia
e ainda praia sob a pele quente.
São infinitos grãos
e separam
completas ventanias que se formam:
uma na serra
outra na orla.
Vai agora riscar o nome
daquela que triste espera
e recolhe sólidas conchas
para o sorriso da amada.
Volta,
traz consigo novas cores.
Que o sal não envenene seu gosto
e que seu cheiro não se perca na água.
Que seu olhar se fixe no horizonte.
Que a lembrança venha silenciosa,
assustadora e débil.
Fica, ainda,
quando o coração te parte em raios
e o sol risca nuvens.
Dorme, ainda,
esperando por ela.
Espera, adoece.
Resiste ao regresso,
controla suas dores.
Perde-se em noites profundas,
clama por ela, ela não está.
E não foste tu, ainda sadio, que a abandonaste?
Retrocede, admite-se louco.
Contorce os dedos, revira-se, encontra-se.
Sonha com o abraço.
Isso nada anula, nada muda ou resolve.
Sobrevivente,
volta
pra que te devore e mate
de saudade,
afeto
e brisa.
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