Mostrando postagens com marcador concretudes abstratas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador concretudes abstratas. Mostrar todas as postagens

16 agosto, 2011

Poesia e Poesia

"(...) ostra feliz não faz pérola. Isso vale para nós".
Rubem Alves


Há o que se escreve e é poesia.
Surge do vazio de sentir,
da angústia.
É qualquer letra e palavra e
qualquer desconsolo.


Há o que se sente e é poesia.
É o mais pleno mergulhar de almas,
um embaralhar contínuo de desejos,
uma paz constante.
Todo o ser é só a vida
e não há o que ser dito
porque não existem palavras para dizê-lo.


Viver a poesia é o fim do poema.


________________________________________________




Foi bom, amigos, enquanto durou.

07 julho, 2011

Voie

*desabafo, EU: "Onde iremos se insistires em me amar?"

E divagas, sozinho
, dizendo que esta
s são preocupaçõ
es que não me ca
bem. Vamos, não
sabemos nós para
onde. É só uma es
trada feita de pass
os lentos, porque n
ão queremos cheg
ar. E divagas, sozi
nho, dizendo que e
stas são preocupaç
ões que não me ca
bem. Vamos, e qu
e adormeça o dia.

*desabafo, EU: "Eu fugiria. Mas prefiro estar. E ir"

13 maio, 2011

Ultrapasso

Não estão no caminho feito
os passos dados.
Não há vestígio dos pés, daquilo que foram.

O conforto está em esquecer o caminho, em não mais provar o desgosto da areia fina entre os dedos. Porque isso já foi.

Os passos adiantes são sempre como o primeiro e não hão de sofrer o desastre o peso a miséria e angústia de proceder os passos que já foram.

Começar e prosseguir; e o progresso, o próximo passo, é também o primeiro.

Passado, os passos se foram.
Foram, não mais outros serão.
Serão, mas não mais os mesmos.

08 maio, 2011

(sem título XXIII)

Ouçamos a madrugada,
o que ela traz,
o que ela espera.
Sejamos a madrugada, ou antes!

Sejamos a noite dos becos.
Sejamos, depois, madrugada.

08 fevereiro, 2011

Nibbāna

Todos os ventos sopram em direção ao meu centro.
Todos os pássaros se alimentam em mim.

Flores nascem no caminho que trilho.

27 janeiro, 2011

Do sal



Eu sorri para o horizonte
entorpecida de luz
e voos de andorinhas no verão.
Onda e areia de praia,
sal no corpo e no vento.
A maresia corroeu meus pensamentos,
O coração flutuante em espuma branca.
Eu sorri para as curvas dos corpos
e o ritmo dos barcos.

Quando voltei para a serra
não havia mais amor ou morte.
Trouxe a alma limpa,
tão plena e livre quanto jamais fui.
Estão em mim os horizontes e as luzes,
estão em mim as ondas e os mares.

04 setembro, 2010

Segno

Maldita seja sua pedante boca
palco vil da minha derrota.
Não poderia denunciá-lo
nem fazer-me sua vítima
se antes do golpe
já me havia apresentado todas as suas armas.
Não posso culpá-lo
se fui em quem entregouo peito aberto ao fuzilamento.

Que seja hoje
- o dia do meu fim -
o fim de tudo.

30 agosto, 2010

Lobotômica

Chegou o drama
sem que houvesse dor latente
para justificá-lo.
Apropriou-se da lágrima
para nela ser manifesta.
Quando passa a agonia,
porém,
nada resta que não a consciência clara e desnecessária do tempo que foi perdido
por um dia,
a cada dia,
sem que o próprio reflexo se deixasse morrer.

Chegou o sonho
sem que houvesse olhos abertos
para acompanhá-lo.
Apropriou-se do sono
para nele ser manifesto.
Quando passa a noite,
porém,
nada resta que não a vaga lembrança do inédito e incontrolável delírio perdido
por uma noite,
a cada noite,
sem que a própria existência se deixasse existir.

07 agosto, 2010

Abstracto

Meu coração está em silêncio: o pulso é fraco.
Não é morte, não é fome, não é frio.

Também está muda minha boca: não falo, não grito, não sussurro.
Afonia incógnita, delirante.

Meus passos: todos calados. E não é peso,
não é dor, não é preguiça.

A vida está(tica) todo o tempo no mesmo ponto do destino.
São, por fim, os pássaros que chegam até mim,
me fazem ninho,
alimento.

02 agosto, 2010

Memória

Eram tão lindas as flores
e tão belo o perfume e...
ah!
que belos dias nasceram
um após o outro!

Depois, tanto sonho!
Ora utopia errante,
ora realidade assídua,
ora devaneio monstro.
A vida em telas,
em torres,
em fios.

o colo delirante, mito.
antes a tirania do peito sobre a vida,
mas também disso a alma se arrependeu mais tarde.

esta heresia chamada saudade
celebra tempos vazios:
manhãs e tardes que nunca foram noites.

20 junho, 2010

Fome cega do amor (idem)

Olhos fechados, ela e ele.

Mas só depois que ambos se olharam ternamente e pareceu-lhes sensato que o toque fosse logo e que somente conseguiriam sentir o toque do outro quando fechassem os olhos (posto que a imagem que viam era profundamente perturbadora e a mente não poderia, ainda que quisesse, ocupar-se de outro sentido).

Sincrônicas, mãos se tocaram. E como que se de olhos abertos, dedos percorreram dedos e curvas e braços. Arrepios.

Ela, delicada, subiu a mão esquerda pelo antebraço, bíceps, ombro, até as costas, onde cravou-lhe as unhas. Desfez-se da pressão enquanto descia-lhe a lateral do abdômen, depois subiu os dedos levemente até o tórax, onde encontrou seu par direito.

Ele, ardente, subiu-lhe o braço direito pelo mesmo caminho, até os ombros. Depois, encaixou a mão em sua nuca e prendeu os dedos entre os cabelos, enquanto a mão destra apertava-lhe o ventre contra o seu.

Ofereceram-se em banquete, cada qual pela fartura do outro. Engoliram-se de tesão, mastigaram-se mutuamente. Comungaram-se. Cada vez mais força, mais desejo. Beijaram-se infinitamente naquele instante: ávidos, ansiosos, famintos.

Saciaram-se, mas então foi a gula. E não mais de fome se consumiam: a necessidade era do paladar. Seguiram - como até agora estão - beijando-se.

Olhos fechados, eu e você.

03 junho, 2010

O que eu quero contigo

Quero conhecer-te.
Quero que se apaixone pelos meus olhos através dos meus óculos vermelhos.
Quero que o nosso primeiro toque seja como um vulcão, e nossas primeiras palavras se engasguem.
Quero que você me deseje timidamente com o olhar.
Quero que nosso primeiro beijo seja acidental, mas que evolua para uma loucura maior, que sejamos tomados pela volúpia, que nosso corpo não caiba mais em desejo e que sejamos um do outro pelo instante de uma tarde maravilhosa.
Quero o pôr-do-sol mais lindo que sua cidade puder oferecer.
Mais entrega. Quero você adormecendo no meu peito. Eu acordada, sem acreditar.
Quero ver o sol nascer. E um dia p'ra lembrar por toda a vida.

02 junho, 2010

Diana do peito meu

Todo dia, meu amor,
vigio teus passos.
Busco, adiante,
as novidades de tua existência distante.
Acompanho tua poesia
para que tenhas um lar aconchegante
e tua voz possa ecoar além do teu espírito.

Dedicar-me a ti é uma forma de apagar tua ausência.

Diz-me, agora,
como posso ainda viver sem ti?
Encontremo-nos, Diana,
para que meus olhos lhe fotografem,
e eu registre teu tempo,
e eu percorra tua vida através dos teus sonhos.

Quero enquadrar-te no infinito onde sequer cabe minha saudade.

Quero estar contigo, vê-la piscar;
dobrar ondas na orla baiana,
criar furacões dentro de mim.

01 junho, 2010

Anoitecer

Como é triste e constante a noite dos teus olhos.
Chove sempre,
caem estrelas no jardim do meu ventre.
Está quente, agora, amor.
Deita.
É noite e teus olhos vão dormir.

E, sem qualquer esperança,
teus dedos correm meus cabelos.
"É noite", dizes, "deita comigo".
E teu toque de leve brutalidade
encaixa nossos quadris.

Dorme, amor, que já é tarde.
Dorme, que eu não posso mais.

Mas teus olhos anoitecidos não mais me vêem
e, cego, tuas mãos me examinam.
"Deixa-me anoitecer contigo,
penetrar a madrugada e
adormecer em ti".

Contra a poesia eu não resisto:
anoiteço.

30 maio, 2010

Faminta

Ando faminta,
garfando o peito vazio.
Meu coração não é senão uma tigela rasa
e todo amor que nele estava
eu já comi.

Eu já comi e estou faminta.

Vago, dolorida,
mendigando o peito alheio.
Passo com os olhos carentes
e quem me vê sente um pena desgraçada da minha desgraça.

Já me foram todas as tripas e vísceras.
Nada de amor me resta.

Meu estômago fundo: não tem feijão.
Minha cabeça afunda: está vazia.
O meu peito aberto: solidão.
Sofrimento, ao menos, p'ra poesia.

06 maio, 2010

Sobre a brisa, o que eu digo

Acordou à beira mar - já era dia!
Era a brisa aliviando a areia quente.
Qual sonho era este que ora vivia?
E que peça lhe pregara sua mente?



Sobre a brisa, o que eu digo é que ela foi
e o vento nem mais veio beijar-me.
Foi na brisa minha inconstante paz
e eu sinto falta agora, mais que tudo.

Dois pedaços de fundo de rio.
Duas poças de lama barrenta.
Dois olhos castanhos, cor de terra.
Duas janelas com vista para a montanha.

Sobre a brisa, o que eu digo faz sentido:
ela é minha. Ela vai, mas sempre volta.
Haverá um dia em que eu irei distante
e não mais terei olhos de esperança.

Duas superfícies claras de rio doce.
Duas esmeraldas cravejadas em pele.
Dois olhos verdes, cor de botão de lírio.
Duas janelas com vista para o céu.

Ainda sobre a brisa, não mais importa:
agora ventam em mim outros ventos.
Mas está em mim jamais ter asas
e só voar em pensamento, sozinha.

16 abril, 2010

Da dor de agora

O amor que eu desejo
toma a forma que necessito:
é confortável seu colo quando dele preciso;
é quente seu corpo quando meu eu é frio;
é forte seu braço se quero que me erga;
é fraco seu ego quando preciso que precise de mim;
é amigo seu ouvido, se me sobram desabafos;
é amante seu todo, se eu toda sou carente.

Só não é meu,
meu amor,
em tempo algum do mundo.

Sigo desejando,
angustiada,
que algum dia eu morra dele.

Andorinha II

Limita o passo, quadrado verde,
                          meio falante,
                          alheio trigonométrico,
                          hecatombe cardíaca brotando
                                                          cogumelo.

- Foi o cigarro?

                         Foi a andorinha: voou esperta
                         concêntrica consciente
                         distraiu-me da localização do ninho.

                         Ou lhe parece que sou predadora
                         ou se lembra dos muros que ergui.

A andorinha não sabe, mas eu não presto. Eu estava diferente, mas não sou, nem serei.
Apenas desejo enquanto podes fugir.

06 abril, 2010

Ele - espelho vento rio

Poderia, aquela que o ama, esperar que os ventos criassem em teu lago ondas tais quais a de um oceano. No entanto, ao inclinar-se sobre as águas, vê-se refletida na calmaria desejada. É o mesmo, o desejo que o mantém confortável na brisa e o que o incentiva à tempestade. E se não sabe quanto deve deixar-se soprar é porque aquela que o ama te respira e te sufoca.

08 março, 2010

Você não sabe o que é ser mulher

Possuir-se sem requisitos,
sem esperar-se no canto do quarto.
Mais que se cobiçar nas noites:
desejar-se completa o dia que seja.

Pois é esta vida muito necessária
e dela não se pode escapar sem ter sido.
Evade-se a testemunha moral.
Quem fica é quem dorme, quem olha e quem chora.

Qu’importa o tempo gasto na insignificante existência,
se mais belo e constante é o suspiro?
Quantas madrugadas te divertiu contigo
a desmascarar as faces abusadas da estrela?

Que imaginas que imagina quando ferve em delírio?
Não teme afronta de quem chega, o vício impera.
Se vê estrelas, é ela mesmo quem constela.
E transborda mil vulcões, cerra as pestanas.

Se o limite que conhece é a forma
e, entrelaçadas, as pernas denunciam o prazer
foi mais que digno amar-se sem renúncia.
Divino é o elogio que ela toma para si.

Não foi insana ao cravar a própria carne
porque não buscou outra que não a si.
Encontrou-se, abraçou-se, dormiu-se.
Irão dizer: aquela que sub-meteu-se.