09 junho, 2009

Eu não te quero parecer estranho quando entrelaço meus dedos aos seus
e me confessar demasiado triste por não te escolher.

Ou ainda confessar e,
ao confessar,
ser excessivo.

Te perder amiga e te perder mulher.

Eu prendo e aperto seus dedos.
Eu poderia - não mais agora - te permitir sair.
Eu escutei suas queixas e suas defesas e agora sei que não te posso abandonar,
ainda que não-fazê-lo seja o mesmo que me perder.

De maneira superficial, eu acredito, você supõe verdades a respeito da minha mentira
e limita sua compreensão ao que eu tento esconder,
ao meu tempo gasto admirando o nada
com o olhar perdido
admirando você em mim, dentro de mim.

05 junho, 2009

Querido amigo,

Sei que lhe devo uma carta física, uma dobrada e envelopada, remetida por vias normais às quais uma carta deve se prestar, mas na urgência de dizer-lhe algumas coisas, não encontro outra forma. Sinto uma angústia inconveniente (eu diria perturbadora, mas qual angústia não o é?), resultado de incertezas que surgiram ao longo dos desesperos que criei. Talvez seja hora, amigo, de renunciar aos edifícios inacabados e iniciar uma nova construção. Uma mais digna, menos fadada ao fracasso. Hipoteticamente, é claro. Que certezas temos nós nesta vida?

Sinto se, mesmo ausente, recorro a palavras distantes. Penso que talvez seja hora de abandonar velhos hábitos. Até me deprimi (e acho que ainda não me recuperei) ao me perceber diferente demais, tantas vezes (quantas sejam possíveis afirmar) pior do que aquilo que eu já detestava em mim. São essas certezas avassaladoras que derrubam um ser humano de joelhos e jamais o colocam de pé novamente. E eis que, quando nem eu era capaz de me amar, surge um alguém que se diz orgulhoso ao meu lado. Meu prédio antigo estremeceu.

Que faço eu, amigo? Quais são meus parâmetros de felicidade?, onde encontro?, será que tento? Não consigo nem mais dormir, só penso, penso, penso, penso e penso tanto e desejo tanto que os beijos chegam a se soltar dos meus lábios a procura do par, mas morrem na dúvida da possibilidade. Suas mãos são quentes e seu coração intenso. Oh, ele tem um coração, amigo, e funciona.É tão sincero e sempre se apressa em me confortar, cuida de mim e do que sinto por ele. O que eu sinto, aliás, é cada vez maior. E, ainda que me cause tantas perturbações, eu arriscaria por ele meu maior edifício.

Desculpa-me a falta, se não lhe procurei ou nem mesmo dei notícias. Mas se lhe escrevo tão repentinamente é porque sei, amigo, que mais ninguém me poderia entender. Deixo cá meu abraço, meu beijo e minha alegria em compartilhar minha tristeza. Não aguardo solução, apenas uma resposta querida. Querido.



Sempre tua,

Carmen.

Entre-meios de lidar com a perda

Eu não mereço o mar.
(Eu) sequer (mereço) beijos de brisa
- eu não mereço!
Não tenho metais ou pedras,
nenhum valor possuo que não o meu
que é bem pequeno.

Me espere acordar.
Eu ainda não preciso.

Jamais andei descalço
(com os pés carregando poeira).
Eu não deveria
- ninguém deveria -
te oferecer palavras menores que as suas.
Não conheço o prazer da neblina;
de tatuar, em mim, o arrepio;
sinto falta da desconhecida madrugada fria.

Só as letras me mergulham quando já me encontro afogado.

Acabou-se, nos detalhes, a exploração dos meus pedaços.
E penso,
ainda,
que
deverias saber que meu adeus é repleto de até logo.

São cinco ou seis estrelas sustentando meus pés, sustentando meu nada além de mim.

Serei sempre eu rasgando as malhas, rompendo a pele.
Deixar de esperar é ainda uma angústia maior.
Ainda morro
de tanta individualidade.

Eu me sinto mal por não saber lidar com gentilezas, por ser ingrata, por não ter um só bom sentimento, tendo tantos impulsos que me levem a ter. Me sinto mal quando a vida me é excessivamento gentil; quando não há perturbação, eu me perturbo. Em me sinto mal por ser eu, por não ser mais eu, por ser tão eu, por estar presa a mim, por ter me abandonado. Eu não posso continuar.

E penso,
ainda,
que
deverias saber que meu até logo é repleto de adeus.