27 junho, 2011

(ar)Rasto

Eu, no teu encalço,
farejo pelas vielas e becos.
Procuro as promessas feitas,
as pichações cegas,
as provas do assassínio que cometeste contra o meu amor.
Tua imagem, que me é quase uma ofensa,
atravessa meu pensamento à mínima suspeita do teu perfume.
Esvai-se, esvai-se
sem nunca perder, de fato, a forma de quem constroi sonhos.

Não te sigo,
sigo teu rastro. Sigo o passo apagado pelos dias.
Miseravelmente,
sigo o vestígio de onde penso que esteves.

E dou contigo às caras
punindo-me por ser lento,
por não acompanhar-te a tempo.
Eu nego, tu sofres,
eu juro, tu injuria-se.
Assumo o erro que não tive,
faço-me vilão.
Perdura-se, perdura-se.
Eu me perco, sem logro, onde jamais me encontrarei.

24 junho, 2011

Trago

Não gostava, mas decidiu sentar-se ao sol. Afastou a grande bolsa para o lado, cruzou as pernas desajeitadas. Tomou o pequeno isqueiro vermelho entre os dedos, domou-o. Ajeitou o cigarro entre os lábios pintados e, com um fogo tímido, acendeu a ponta. A tragada forte inundou-lhe o espírito de fumaça e ocultou-lhe o frio, por um instante. Tomou um gole do chá – já estava morno. Viu sua sombra à frente, o cabelo pareceu-lhe bonito. Baixou os olhos e viu, no fundo do copo plástico, os dedos que o seguravam; dedos cor de mate, “uma cor bonita pra se ter”, pensou. O chá estava no fim. A fumaça do cigarro voava esparsa no vento e circundava-lhe o pescoço, como um bonito cachecol de vazio e monóxido de carbono. Respirou fundo. Deu um trago.

Olhou para frente; viu uma obra, alguns prédios, viu pessoas ao sol, viu o céu azul e limpo. Viu que sua realidade não se comovia com suas acepções sobre o mundo, viu que sua existência era um nada consumado, viu que seus desejos eram incompletos e inconstantes. Viu-se desmerecida do que tinha, viu-se sozinha sob o sol. O vento soprou-lhe as costas, a blusa de lã não ofereceu qualquer resistência contra o frio. O corpo estava frio, os pés estavam frios, as mãos estavam frias. O coração frio como se não houvesse amor, o pensamento frio como se não houvesse fantasia. A alma fria de quem não conheceu a satisfação se ser. O chá frio. Protelou o último gole e deu um trago.

No céu, andorinhas desavisadas buscavam o verão. Pensou na tolice maniqueísta de suas justificativas para o fracasso. Pensou no frio. Fechou os olhos e tentou lembrar-se de uma tarde quente, mas nenhuma lembrança calorosa fez sentido. Lembrou-se então das dúvidas que tinha no peito, vastas como um campo aberto, enquanto flores de esperança brotavam-lhe na garganta. Respirou a brisa que vinha de dentro, cheirava a angústia de abismo. Um arrepio vindo do precipício estremeceu-lhe a espinha, o cigarro ameaçou cair. Sentiu medo. Não sentiu mais nada. O pensamento se refez em aurora rósea, sem luz ou sombra que tocasse o chão. Abriu os olhos. Deu o último gole no chá gelado. E deu um trago.


Post escrito em homenagem às 10.000 visitas do Ode à Vida.