06 setembro, 2008

Drummondiana

I

Minha tão amada Antologia Drummondiana voltou às minhas mãos. Que ódio de mim por tê-la emprestado. Mas tudo bem! Agora estamos eu e Drummond neste sofá. Ele me olhando meio de lado, fingindo não me ver. Mas eu sei que ele me espia de beira quando eu me viro para escrever.

II

É que quando leio Drummond me vêm três milhões de idéias à cabeça, todas esvoaçantes. Eu, como respeito as verdadeira boas influências, dou a essas idéias mais que atenção: dou caneta, folhas em branco e alguma disposição em transcrevê-las. Drummond ainda finge não me ver.

III

Eu já tive um caso com Vinícius. Foi um caso intenso, essas coisas de adolescência. Mas aí... conheci Carlos e Vinícius não teve chance. Somos, ainda, grandes amigos, de ter longas conversas e passar noites em claro discutindo as dores do mundo. Às vezes versamos, às vezes cantamos. Mas é Carlos que eu amo.

IV

Despretenciosamente, estive em Itabira há alguns anos. Bem no trevo de entrada da cidade existe uma estátua de Drummond de pé, bem no centro, com um dos braços erguidos indicando p'ra que lado fica Itabira. Há uma outra estátua, também em tamanho real do poeta sentado num banco, que fica na porta do teatro chamado - adivinha o nome? - Carlos Drummond de Andrade. Um teatro enorme, com uns seis ou sete de andares de coxia, acessíveis apenas por uma escadinha de metal rangente e pouco confiável que subi umas doze ou mais vezes enquanto me preparava pro espetáculo de mais tarde, sem nunca chegar ao último andar. Além das histórias de que o teatro era mal-assombrado, só havia luz até o terceiro andar. Daí pra cima o que restava era a luminosidade dos andares mais baixos, o último andar era um breu só. No fim do festival de teatro conseguimos apenas o quinto lugar entre onze outras peças, o que me faz pensar que não foi um resultado tão ruim quanto me pareceu no dia. Bem, ao final dos resultados eu me desabei em lágrimas pensando nos trejeitos que não fiz e que talvez tivesse levado o grupo inteiro ao "fracasso" e me sentei no banco da porta do teatro com a cabeça nos colos de Drummond que me disse algumas coisas e me senti mais leve. Óbvio que não vou contar o que ele me disse, esse é um segredo que ainda guardamos. E eu amei Carlos naquele instante mais que em qualquer outro momento.

V

Me lembro ainda quando o conheci. Eu tinha quinze anos e, junto com mais um bando de garotas e um garoto, precisava de um tema para a Feira de Cultura daquele ano. Alguém propôs Drummond. Tenho alguns rasbiscos de memória, me lembro de pneus, coreografias ao som de Jobim, poemas escritos gigantemente em metros e metros de TNT e a divisão dos temas. Eu fiquei com "Drummond Erótico" e "O amor natural". Não me lembro exatamente os detalhes, mas sob a direção de Elba chegamos ao final com os pés cheios de bolha, a pele com sérias queimaduras de sol; ela ainda conseguiu manchas brancas nas mãos por ficar atirando limões n'água durante a tarde e eu, várias manchas vermelhas na perna, causadas pela meia grossa, a tinta, a lona e o sol. E conseguimos, graças a todos nós, muito à Elba e claro, a Drummond, um lindo primeiro lugar dividido com o grupo que falou sobre o Festival de Parintins. E como agradecimento, ao sair da quadra, Drummond nos esperava, com um abraço largo e um sorriso fechado, mas sincero. Eu amo Carlos.

VI

Como eu disse, fiquei responsável por desenvolver o "Drummond Erótico" e então comprei "O amor natural". A alegria de possuir um livro de Carlos não durou uma semana. Meus pais, numa tentativa de preservar qualquer coisa, recolheram o livro e me proibiram de lê-lo. Olhando pelo ponto de vista deles, e considerando que "O amor natural", não bastasse a perversão de Drummond, é estampado de mulheres rechonchudas e nuas em posições convidativas, eles não estavam de todo errados, eu talvez não tivesse ainda maturidade pra compreender a dimensão de certos versos. Seja lá do que estavam tentando me esconder, não deu certo. Naquela altura do campeonato eu já havia tirado cópias e cópias do livro e o sexo na dimensão de Carlos era um fato. Eu não vou falar sobre o livro em si, porque acho que é uma coisa que cada um tem que ler consigo e achar maravilhoso, pecaminoso e tantas coisas mais, mas que cada um ache o que quiser. Parece devasso, mas o título do livro sugere que é o amor da maneira que é, sem eufemismos, sem abrandamentos supérfluos, é um convite a amar Drummond de outras formas. Mas há, é claro, alguma devassidão. E tanto Drummond sabia disso que não publicou os poemas em vida, mantendo a imagem de bom Itabirano. Foi, talvez, uma censura interna. Ou talvez fosse por diversão. Talvez por timidez. Fato é que foi ele que escreveu. E é por isso que amo Carlos.

VII

Alguns anos depois, procurava um colcha na parte de cima do guarda-roupa quando encontrei lá meu livro, meu tão amado livro. Hoje sou eu que o escondo da minha mãe.

VIII

Pra sempre eu vou amar Drummond. Desse jeito que ele me ensinou e, sei, reciprocamente. Bom velhinho, bom mineiro. Eu amo Carlos.

IX

PERGUNTAS

Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço
uma angústia do tempo.

Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.

Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que à navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,

em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.

Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
desse repensamento:
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.

No vôo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):

Amar, depois de perder.

**(Carlos Drummond de Andrade)

X

É de ser feliz mesmo, é de ser fiel, é de ser bonito. Eu amo Drummond e isso me basta em qualquer esfera. Eu amo Carlos como tem que ser, e desde sempre e até pra sempre.

4 comentários:

Diana Borges disse...

Ufa! Achei que não ia acabar.
Isso é loucura do Drummond amar,mais loucura é imaginar que ele está a te espiar.
Sua convivência com ele está tornando-te insana, tbm quero louca ficar.

Linda história,querida!
Caso de amor passional, avassalador.

Vinícius Remer disse...

Como poeta reconheço minha ignorância de não conhecer drummond,
curto muuito vinícius, o poetinha.
Que ama e amou como eu...

elba disse...

Ah! O que a gente ganhou naquele dia? rs Além do Drummond, claro! Que delícia era fazer aqueles limões!!!
Coisas únicas. "Amar depois de perder"... qq coisa assim, isso mesmo.

Luiz Felipe Leal disse...

"É que quando leio Drummond me vêm três milhões de idéias à cabeça, todas esvoaçantes."

é que temos todos apenas duas mãos, e o sentimento do mundo.



me perdoe a ausência.

gosto de voltar.

grandes abraços.