22 agosto, 2008

Um eu todo (des)(re)torcido

Oficina de verdades:

Quando surgiu a idéia de um blog (pela última vez) ficou acertado que eu teria um nome. O "Martinez" nada mais é que meu sobrenome latinizado. O "C" foi uma letra aleatória talvez não tão aleatória assim... aquelas coisas que talvez Freud explique, ou não. E desde então eu tenho sido C. Martinez, essa pessoa que transita entre as sexualidades, sempre muito educado(a), sempre gentil e encantador(a). Mas é, inevitavelmente, uma máscara. E já que estamos brincando de dizer verdades, não é que a mentira me incomode. O que me incomoda é usar alguém pra mentir por mim, sendo eu tão capaz de mentir com maestria invejável. Martinez é o que eu esperava que as pessoas vissem em mim sem que eu precisasse mostrar. Mas quem me conhece sabe que nem de longe sou assim, tão educada e gentil, tão genial. Pois é, sou uma mulher. Aliás, sou só uma menina.

Martinez tem sido mais que só uma máscara, tem sido uma entidade superior que me permitiu dizer, até agora, coisas que eu jamais diria sozinha. Tem sido um companheiro. Tem sido um personagem que criei fora dos palcos. O palco me faz falta de muitas formas, e me faz falta também a coragem de voltar a atuar (ou "à toar", como queira). Tentei produzir, na verdade, um alguém que fosse tão particularmente literário que ninguém duvidasse que ele fosse outra coisa que não poeta. Mas eu não sou assim.

Continuo ainda escrevendo como Martinez, porque de alguma forma separo aquilo que tenho que ser daquilo que espontaneamente(?) sou. Eu grito aqui as coisas que calo na vida.

O degas:

Verdade mesmo é que eu não tenho nada de interessante. Sou ligeiramente feia. Não uma feiura que incomoda ou chama atenção, só de uma feiura ignorante, esquisita. Uma feiura de sardas e miopía. Tenho uma paixão louca por bandas latinas fabricadas, sou brega, sou chata e tantas outras coisas que Martinez não é. Não se sintam culpados em preferí-lo. Até eu prefiro.

De todo, não é que Martinez não exista. Ele só é meu lado melhor, meu lado galã. Mas ainda sou eu, maior e "photoshopada".


Medo:

Só existe uma coisa maior que minha preguiça: minha soberba. E Martinez recebe tantos elogios que começou a me incomodar. Que bobagem, ainda sou eu! Eu com ciúmes de mim, eu sou patética... Assustadoramente patética...

Ai! Que alívio!

E que medo... Me vi de chinelos mendigando compreensão. E Martinez, com seu terno risca-de-giz, passando sua mão sobre minha cabeça e me colocando no colo. É de se preocupar quando se está carente de si mesmo. Patética.

O degas (II)

Lembram?

"Se me fosse concedido ser mulher, eu seria, se pudesse escolher, baixa e gorda. Dessas
baixas de menos de 1,60m. Dessas gordas de mais de 80 kg. E queria ter bonitos
cabelos, bem negros, ainda que pintados, pra que não desse muito trabalho e eu
pudesse me concentrar em outras coisas de ser mulher." [...]



Pois sou exatamente assim... e tantas outras coisas que não cabem em palavras. E tantas outras coisas que nem sei ainda e talvez nunca saiba. Mas, talvez estupidamente, eu tenho orgulho das coisas que faço, até das erradas... não, não é demagogia... eu sou uma sem-vergonha, é verdade. Mas tudo aquilo sobre a inevitabilidade da morte é o que dá coragem, não é? Quando dá tudo errado eu penso comigo: "Foda-se! Eu vou morrer mesmo...". Isso é falta de perspectiva, mas que se há de fazer? Tem aqueles que acreditam na vida eterna, eu acredito na morte. Também
é fé, não é? Acho que é isso... Tomara que seja.

4 comentários:

Diana Borges disse...

Sem palavras, Thalita cara de bola.
Se soubesse que era você, não teria visitado com tanta frequência o blog. =)
É difícil aceitar sua veia poetica.

Adorei o texto, de coração aberto, dando a cara pra bater, tentando ser você... Latejando sinceridade.

Admiro você por ter guardado isso por tanto tempo, díficil ficar em segundo plano...

És divina, meu bem.

Vinícius Remer disse...

Frequento seu blog ah pouco tempo.
Confesso que nunca soube se era homem ou mulher quem escrevia
lindos textos aqui.

E hoje só as pessoas que vem aqui
diariamente tem o prazer de
ler o tal segredo revelado.

Eu também não sou o homem perfeito,
nem ah beleza perfeita.
Porém não tenho um personagem, ah não ser eu mesmo( o poeta que eu digo ser)

Acredito na beleza, onde a pessoa
se torna bela. Bela em suas palavras e com sua personalidade.
Acredito que você thalita é uma pessoa incrível, e quem dera eu
ter uma amizade assim.

Luísa disse...

Você me satisfez uma curiosidade.
E esse post foi brilhante, como Thalita mesmo.
E o que você disse no final é muito ressonante com o que eu estava pensando, sobre morte e tal.
Achei doido, isso!

felipe disse...

Te desmontaram que nem lego em cima da mesa.